Contos de José Rodrigues Miguéis [ePub]

by José Rodrigues Miguéis

Escritor do século XX, José Rodrigues Miguéis tem na sua obra grande influência das suas próprias vivências: por entrar em conflito com o Estado Novo, vê-se exilado nos Estados Unidos, um português obrigado à fuga, o que se torna evidente pelos seus contos, centrados essencialmente na emigração e no povo, a “gente da terceira classe”.
Neste livro, organizado e anotado por Margarida Barahona, temos cinco dos seus contos, todos eles tendo em comum uma escrita quase coloquial, de conversa, em que a sonoridade por vezes altera a ortografia, a ironia se encontra implícita, e a estrutura se lança num círculo.

“O Acidente”: O conto começa com a descrição da obra a uma “casa de rico”, enorme, algo a ficar na História bem depois da morte do seu proprietário: tal começo é de ressalvar dado ao uso pelo autor de tempos verbais que evocam o passado, o presente e o futuro, como se os acontecimentos não se inserissem em nenhuma época em especial, pertencendo a todas.
Prosseguindo-se a leitura, salta de imediato à vista a distinção entre a classe dos trabalhadores, levando a cabo o seu dia-a-dia com uma resignação tão entranhada que se tornou natural, e a classe “dos ricos”, o proprietário da casa e logo depois os seus herdeiros, cujo poder se nota essencialmente pela sua ausência no texto, onde são apenas mencionados como se não pertencessem àquele mundo. Já aqui temos um dos pontos-chave do conto.
E eis que num acidente, um trabalhador morre. Seria de prever, dado o título do texto, no entanto, a previsibilidade não impede que todos os círculos formados pelo atirar da pedra apareçam ao leitor: o que primeiro me despertou o interesse foi a comparação entre a morte previamente “anunciada” no conto do proprietário da casa, com esta nova morte. A primeira ocorre sem grandes cuidados, ou interesse, por parte das personagens, que pouco mais fazem que comentar o facto de não ter vivido para ver a casa finalizada, e partilhar um desagrado superficial pelos herdeiros. A segunda ocorre entre eles, com alguém próximo, que conhecem, que lhes pertence, que poderia ser qualquer um deles, e a quem a mãe leva o almoço todos os dias. Entre uns pensa-se nas questões práticas: que o sangue não deixe nódoa! (Quanto balança aqui a vida humana contra os pequenos desagrados daqueles que ficam?) Mas na maioria, a apatia morre com aquele homem, surge a revolta, insulto ao empreiteiro, representante dos ricos, greve naquele dia… E regressa no seguinte. Tal como a mãe do falecido, ainda que já nada mais lhe reste que o fantasma que a cabeça guarda do filho. Afinal, tudo se mantém igual depois da rápida e fugaz chama que aquela fagulha provocou.

“Léah”: Um romance, talvez, não dos que duram, dos felizes para sempre, nem dos trágicos e infelizes. Um que simplesmente aconteceu e acabou, mais um episódio na vida de uma e outro. É interessante notar como a percepção e descrições do narrador autodiegético se adaptam conforme o romance se desenvolve: inicialmente, fechado na sua concha, destaca-se a degradação, da casa e das pessoas, o que se atenua quando Léah, que na verdade lá esteve desde o início, deixa de ser um nome e ganha forma para Carlos. Durante o “mar de rosas” da paixão, tudo em seu redor se adapta à sua felicidade, à sua visão, e Léah é caracterizada apenas pela positiva – ainda que o Carlos saiba desde o início das suas falhas, estas parecem não o afectar. No entanto, com o término do romance, dá-se um retrocesso e tudo torna à degradação e aborrecimento iniciais.
“A cobardia pode muito, a cobardia é heroica quando se mascara de altos propósitos.”

“Saudades para Dona Genciana”: A história começa e acaba com a descrição da Avenida, ela própria uma personagem pela sua personificação. Comparando-as, tornam-se evidentes as diferenças que ocorrem entre aquilo que era aquando a infância do narrador, e aquilo que é no seu momento presente: podemos encontrar nesta Avenida uma alegoria ao estado do país, ou até mesmo da República vigente. O que se mantém nela como um ponto fixo, ainda que não mais que uma memória, é Dona Genciana – e partindo dela, seguimos para a sua família e restantes habitantes da pensão, sempre com um toque de má-língua e segundos significados lendo-se pelo meio.

“Porque te Calas, Amândio?”: Amândio, a personagem central no conto, tem uma caracterização limitada à visão do sobrinho, Gabriel, ainda que este não se confunda com o narrador. Ainda assim, é de notar uma divisão bastante clara entre a fase da vida de Amândio em que este ainda tinha ideias, falava e agia por eles, acreditava neles, a fase posterior em que a descrença o cala, permitindo que quem o rodeia lhe faça gato-sapato. Uma dicotomia, a qual também acompanha a dicotomia cidade/campo.

“O Cosme de Riba-Douro”: Cosme é o emigrante idealizado do autor. Com os seus defeitos, sobrevaloriza-se pelo senso de justiça, pela perversidade na procura dos objectivos, pelo descaso do material, pelo amor saudoso – mas consciente de que se prefere fora dela – à “terra”, e pela crença da América como terra da liberdade e das oportunidades. O conto, praticamente conduzido com diálogos e discursos de Cosme, centra-se essencialmente no transmitir de ideias de Cosme, e na sua insistência e provação para adquirir a naturalização americana. O final é previsível, mas confere-lhe uma (ainda maior) realidade.

12.10.2011

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